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February 14, 2007
Não é isso que eles querem ver
Outro dia trabalhei no Tiffany' s, pub em Aldershot, lugar a 1 hora de trem de Londres , com uma menina muito lindinha, francesa de pele perfeita e sorriso de musa. Ela tem um show ótimo, mistura equilibrada de movimentos elegantes no pole com as frescurinhas charmosas do estilo burlesco que faz sempre o maior sucesso e foi a estrela daquela noite. Eu, meio preocupada com outras coisas e algo desconcentrada fiz o meu show de sempre, cheio dos truques elaborados no pole, o que nunca deixa de arrancar aplausos.
De volta paa Londres vinhemos juntas no trem e lá vem ela vaidosa se certificar que eu havia notado o quanto ela era boa.
-"Você já dá aula de poledancing?", ela me pergunta.
-"Não, ainda não mas tenho vontade e até já mandei meu cv para duas escolas.", eu replico
-"Eu dou, disse ela toda orgulhosa, " e sei fazer muito mais movimentos na barra do que os que eu faço no palco mas prefiro não fazê-los porque não é isso o que eles (os homens) querem ver."
Será que estou engananada ou essa francesinha está veladamente criticando o meu estilo cada vez mais acrobático e virtuoso de usar a barra quando danço?, eu pensei desconfiada. Como quem diz, "olha eu abalo também no pole quando eu quero." Talvez até não, tadinha, vai ver ela falou por falar e eu fico imaginando ironias. Nesse dia a minha cabeça estava tão cheia de outras preocupações ( isso foi exatamente na semana do stress) que nem havia espaço para mais outra e descartei logo a idéia de discutir o assunto. Sorri, achando graça no comentário em tom muito convencido da outra e minha resposta foi sincera ,simples e curta,
_"Voçê tem toda razão."
Ela com essa conversa na verdade me pareceu ilustrar outra questão comum nesse ambiente em que trabalho , a da importância que as garotas mais vaidosas que dançam dão não só a fazer sucesso com os clientes mas também de impressionar as colegas, como se para arrasar inteiramente você precisasse não só atiçar o desejo dos homens mas ao mesmo tempo fomentar as inveja das outras mulheres.
Por força das circunstâncias agora sou obrigada a seguir o conselho da outra lá. De volta aos strip pubs essa semana tenho tido de dançar muito cautelosamente pois ainda não estou completamente recuperada da estafa e nos lugares com pole meu estilo teve de mudar um pouco e está bem lento e básico, Nem pensar em ficar de cabeça para baixo que as têmporas começam a latejar. Funciona bem também pois nada como fazer movimentos simples com apuro e até porque considero que o que caracteriza meu estilo , afinetadas alheias à parte, não é a facilidade ou dificuldade dos movimentos que faço - nem sou tão adiantada assim ainda- e sim a fluidez, musicalidade , leveza e alongamento que a minha base de balé clássico empresta aos meus requebros e rodopios. Concordo inteiramente que puro exibicionismo de técnica é um tédio de se assistir.
Meu professor de yoga gosta sempre de falar que o nível mais avançado de um praticante de hatha yoga é medido não pela mera capacidade de fazer as poses mais difíceis mas pela forma como ele é capaz de executar com total entrega, eficiência e consciência as mais fáceis. Que isso me sirva de consolo por enquanto.
Por hora tenho que me aquietar um pouco mas a verdade é que não vejo a hora de poder voltar às minhas peripécias mais arrrojadas na barra, hoje em dia tanto um hobby pessoal quanto uma forma de expressão.
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Posted by Maya Velvet at 03:46 PM | Comments (2)
February 12, 2007
Spiegel
Depois de passar a semana numa de descansar o máximo a deitar na cama e fazer e pensar em nada, o final de semana me encontrou um bocado melhor. Resolvi dar uma saída no sábado e fui aqui perto, no Sadlers Wells , teatro em Angel , para ver o espetáculo Spiegel, retrospectiva dos 20 anos de estrada da companhia Ultima Vez, do Wim Vandekeybus, coreógrafo belga radicado em Madri.
Nada melhor para ver depois de um preguiçoso periodo de inatividade do que a dança nervosa e dinâmica desse grupo, em que os bailarinos se movem no limite e parece que vão cair e se machucar feio a cada momento ou então vão ser derrubados, pisados ou atingidos com um tijolo pelos outros. É adrenaliníco , selvagem mas lírico ao mesmo tempo. Tem momentos que eles caem ou se deixam derrubar que são quase dolorosos de se ver. Tem uma uma hora no começo que o cara entra em cena com o corpo inerte de uma bailarina no braços,vai para a frente do palco , ergue a infeliz acima da cabeça e simplesmente a solta o chão lá de cima, gesto que ele repete em seguida com duas outras pobres coitadas. Ou então a cena que o ballarino se deixa cair da beira do palco para a platéia. E a parte que eles brincam com tijolos de gesso já passou para a história da dança contemporânea.
É uma movimentação de confronto, violenta e crua que brinca com o risco do acidente. A preparação física e mental que esses bailarinos não devem ter de passar para uma performance dessas impressiona. O espetáculo é composto de pedaços tirados dos principais trabalhos do artista ao longo de sua carrreira e o resultado é coeso e forte, ele vai construindo images poderosas mas não exatamente claras, que vão dando a chance de uma interpretação pessoal de cada expectador. Para mim aquela linguagem quase perigosa de corpo parace gritar para a platéia que viver intensamente é correr riscos , que a luta pela sobrevivência se compôe do jogo cruel do confronto com o outro. Mais e mais metáforas vão ocorrendo quanto mais a gente reflete sobre as situações vistas em cena, que ficam impregnadas por um bom tempo na lembrança. Brilhante.
Posted by Maya Velvet at 02:23 PM | Comments (2)
February 08, 2007
Eu nem sabia...
De repente todo esse súbito interesse pelo ordinário mundo das strippers brasileiras em Londres... Eu, presa no meu cantinho curtindo a dor das minhas misérias pessoais nem estava seguindo as notícias e pouco sabia do desfecho da belezoca brasileira desaparecida. Então a menina tinha sido stripper por um tempo nas praias do soho londrino! Veja só. Daí a atenção da impressa brasileira para o assunto.
O lugar onde a misteriosa garota atuou, o Sunset Strip, não é típico dentro dos padrões ingleses dos pub de striptease, pois opera no sistema americano de dar gorjeta, ou seja, os clientes dão dinheiro (notas)ENQUANTO a menina dança; no sistema tradicional daqui a garota coleta(moedas em geral) ANTES do show. Há várias brazucas nesse pequeno clube, ainda mais que a gerente responsável pela rota é uma ex-dançarina brasileira e é um lugar seguro e muito tranquilo, o dono bem gentil e respeitador. Não se oferece danças privada. Eu tentei o Sunset há uns dois anos atrás mas não me adaptei ao sistema e só fiquei por um mês. Aposto que eles estão adorando a inesperada publicidade, imagine, de poder se gabar que as mulheres mais bonitas do Brasil podem ser vistas a ser desnudar nas passarelas do Sunset Strip.
Posted by Maya Velvet at 05:49 PM | Comments (3)
February 07, 2007
Fuzil queimado
Semana passada de puro stress físico, mental e emocional. Além da cota normal de trabalho nos pubs, onde não me poupei nas performances na barra, tive minhas duas primeiras experiências como intérprete telefônico ( a minha primeira vez foi muito fácil, não), estudei intensamente para a minha primeira apresentação no meu curso para professorde yoga ( o que me deixou ansiosa toda a semana), passei 3 dias sem dormir direito, não dispensei meu drinque do final da noite em dia nenhum e ainda tomei o susto de encontrar inesperadamente na segunda-feira, na esquina de casa, o desgraçado do Rick. Sem falar que estava em plena TPM.
No sábado o piripaque. No meio da minha apresentação sobre o sistema endócrino, tão bem preparada e estudada, sou acometida subitamente de uma dor de cabeça tão intensa que me deixou sem ar, a garganta contraiu e mal eu conseguia falar e comecei a suar como se fosse um dia quente de verão tropical. Mesmo tendo de parar aqui e ali por alguns momentos, consegui chegar ao fim da explanação, programada para durar 30 minutos. Não fui tão mal assim apesar do mal estar físico que sentia mas lamento tanto que não tenha podido dar o meu máximo.
De lá para cá o ataque tem se repetido diariamente diante de qualquer esforço físico maior( dançar, falar continuamente ou me preocupar com o que quer que seja) e me deixado incapacitada e inútil dentro de casa .Até tentei voltar a trabalhar ontem, pensando que estava boa mas bastou subir no palco para dançar a primeira música que a dor começa latejante e intensa e corro para casa para sofrer pelas próximas 3 ou 4 horas. Os dois médicos a que fui descartaram de cara qualquer problema sério neurológico , e espero que eles estejam certos; segundo eles a causa mais provável é a combinação de fatores estressantes físicos e mentais. Oxalá seja apenas meu pobre corpo pedindo um bom descanso.
Posted by Maya Velvet at 07:57 PM | Comments (2)